Um domingo variável

No estado de New Cross, um estudo encomendado pelo governo local quis perceber em que dia da semana a população apresentava o índice mais alto de ansiedade. Os dados do serviço de saúde demonstravam uma clara tendência crescente desta condição nos últimos anos, e alertadas pelos profissionais de saúde, a classe dirigente decidiu actuar no terreno. Porém, ao invés de perguntar o porquê da ansiedade generalizada – pois a resposta era há muito conhecida –, os responsáveis sanitários quiseram saber quando era mais intensa a ansiedade nos habitantes. Para tal, foi criado um serviço de mensagens que, aleatoriamente e ao longo do dia, perguntava às pessoas qual o grau de ansiedade que sentia naquele momento, numa escala de 1 a 10, sendo 1 nada ansiosa, e 10 extremamente ansiosa.


A recolha de dados durou dois meses, e teve uma participação massiva. E em pouco tempo, os responsáveis pelo estudo publicaram as suas conclusões, que demonstravam inequivocamente que o domingo era de longe o dia mais ansioso da semana, sobretudo a partir do meio da tarde, quando as respostas de 7 para cima começavam a concentrar-se.


Perante os dados, o governo estadual decidiu fazer uma experiência social temporária: determinou que a cada semana, o domingo seria um dia de posição variável, ao invés dos outros dias que permaneciam fixos. A posição seria anunciada na véspera, em directo, nos meios de comunicação públicos. Foi distribuída abundante informação a explicar o modelo às pessoas, e numa semana de Maio arrancou a experiência. Era uma terça-feira, quando no final do bloco noticiário, com um ar cerimonial, o representante governamental anunciou gravemente : – Amanhã é domingo.


Mas era uma ansiedade diferente, por algo positivo, a esperança por um pequeno sonho, o produto de um jogo divertido.

A população reagiu muito bem à ideia, ainda que a seguir a domingo viria quarta, quinta, sexta, e sábado (continuava a haver apenas um domingo por semana). O espaço a seguir às notícias tornou-se um momento de enormes audiências, pois todos esperavam que aparecesse o representante sisudo da boa notícia: – Amanhã é domingo.


Ao nível do trabalho, a experiência trouxe algum caos, pois tudo tinha de se ajustar àquele domingo dinâmico, que nunca sabia quando surgiria. Escolas, serviços, repartições, tudo funcionava sobre um certo grau de incerteza, que curiosamente parecia não afectar muito a produtividade das instituições, quando comparada com a semana tradicional de domingo fixo.


Quanto à ansiedade, a repetição do estudo mostrava que a população já não sofria da condição sobretudo ao domingo, mas agora em todos os dias da semana, com um pico altíssimo no fim das notícias, na esperança de que aparecesse o famoso representante. Mas era uma ansiedade diferente, por algo positivo, a esperança por um pequeno sonho, o produto de um jogo divertido. Ter de trabalhar ou não no dia seguinte, uma incógnita permanente com uma probabilidade de acontecer de um em sete, todas as semanas havia um prémio, com esse sentimento podiam bem viver.


A experiência terminou ao fim de três meses, por pressão das autoridades religiosas, que desde o início se opuseram fortemente àquele sorteio do seu dia sagrado. Uma guerra com os sacerdotes podia custar as eleições seguintes ao governo de New Cross, e a ideia ficou assim arrumada para sempre. Quanto à ansiedade, essa regressou ao mesmo dia.

Todos os artigos