A Máquina do Nada
O julgamento do Dr. Alberto P. entrou na sua fase final, depois da audição de todas as testemunhas. O caso assumiu grandes proporções, depois dos meios de comunicação começarem a acompanhá-lo e divulgar aquilo que ficaria conhecido como o processo do Robin dos Bosques dos desempregados.
A acusação formal era a de fraude ao Estado. E concluía, feitas as audições, que o Dr. Alberto, aproveitando-se da sua condição de funcionário público no Centro de Emprego, aliciara os desempregados que inscrevia no Centro para um lugar na empresa que ele estava a criar.
Segundo as testemunhas, dizia ele tratar-se de um trabalho simples, umas coisas no computador, podiam trabalhar apenas meia jornada, e recebiam o ordenado por inteiro, que correspondia a nada menos que a prestação por desemprego que receberiam, caso decidissem manter-se sem trabalhar. O nome da dita empresa era Blue Void, e segundo o próprio sócio gerente, gozava de excelente saúde financeira.
Sabe-se que doze pessoas, entre homens e mulheres, aceitaram a oferta. Segundo o seu relato, a empresa do Dr. situava-se no segundo piso de um edifício abandonado de escritórios, na periferia da cidade. Ali, encontraram secretárias empoeiradas com computadores antigos, de aspecto gasto, onde deveriam então executar as suas tarefas, que consistiam no seguinte: abrir o Excel, copiar dados a partir de umas folhas de papel que o Dr. distribuía, gerar uns gráficos, e gravar o ficheiro. A origem ou o sentido dos dados, ninguém sabia. Perguntados em tribunal, as testemunhas admitiram que ao fim de alguns dias de trabalho suspeitaram que aquilo não servia para nada. Mas por sua livre vontade, continuaram a deslocar-se à Blue Void.
Durante meses os funcionários laboraram naquela empresa, alguns de manhã, outros pela tarde, o que fosse mais conveniente para cada um. O Dr. tinha um estilo de liderança laissez faire, e o ambiente geral era agradável.
A fraude acabou enfim por ser descoberta, quando os funcionários, que recebiam religiosamente o seu vencimento na sua conta, começam a estranhar um atraso no pagamento. A Blue Void tinha ficado sem fundos, fundos esses que correspondiam ao fundo de desemprego a que o Dr. tivera acesso, através do Centro de Emprego. O esquema era simples: alterando a conta onde devia ser paga a prestação para a sua própria conta, o Dr. recebia ele mesmo o fundo dos doze. E depois distribuía-o, como vencimento da suposta empresa.
Na prática, argumentou ele em audiência, ia dar ao mesmo. Aquelas pessoas receberam exactamente o mesmo, pois ele não usara sequer um euro dos fundos em proveito próprio. A diferença é que lhes dera uma ocupação, naquilo a que ele apelidara de uma Máquina do Nada.
– Eles não produziam nada, doutora – disse em tribunal. – Mas em boa verdade, qual é a diferença para tanta gente que trabalha por aí fora?
O caso era complicado para os doze, pois para o Estado a prestação do fundo de desemprego tinha sido paga, em teoria já não tinham direito a mais. Mas na prática estiveram a trabalhar – ainda que naquele barraco de fachada –, por isso havia que ser feita justiça, os funcionários não tinham culpa.
Graças ao mediatismo do caso, o Estado assumiu voltar a pagar as prestações aos desempregados, e o doutor foi condenado a três anos de cadeia com pena suspensa.
Um ano depois do caso, numa altura em que havia poucas notícias de interesse, quis a TV fazer uma reportagem sobre o que acontecera às vidas daqueles funcionários. Descobriu que continuavam a ir todos os dias à Blue Void, abrir o Excel, copiar dados das velhas folhas do doutor, fazer uns gráficos, e guardar aquilo numa pasta. Enfim, continuavam a fazer Nada. Mas trabalhavam.
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