A vida de Patrícia

Quis o destino que Patrícia se apresentasse perante Ela acompanhada por um lagarto e um grilo. A presença dos animais naquele momento solene era algo que a intrigava, um cenário que não imaginara durante os preparativos mentais para momento tão solene. Esperava um momento a sós com Ela, naquele Juízo Final, onde pudesse desabafar então toda a experiência de vida com toda a privacidade que entendia necessária. A presença de outros trazia-lhe um certo constrangimento, que provavelmente a deteria nas suas palavras e reflexões. Ainda por cima diante de dois animais. Que sentido tinha falar da sua vida diante de duas criaturas, certamente incapazes de a compreender com o seu cérebro primitivo destinado a funcionar apenas nas mais básicas operações da vida?

Uma voz soou na antecâmara, chamando os três à Sua Presença. Ela não tinha rosto, não tinha voz, era apenas um halo de luz vaporosa, irradiado por detrás de uma espécie de cortina que descia do alto e pousava sobre a laje de pedra, num plano superior ao de Patrícia e dos bichos. E no entanto era possível escutá-la, com palavras que não tocavam os ouvidos, mas o coração:

– Diz-me Patrícia, quem foste tu?

Enchendo o peito de ar, ganhou coragem e respondeu, confiante: – Eu fui uma mãe, uma esposa, e uma colaboradora na empresa que sempre fiz por dar o melhor de mim.

Do lado chegava-lhe uma risada abafada de troça, entre o lagarto e o grilo. Sentiu as faces a arder, apetecia-lhe esmagar com o pé aqueles animais insolentes. Que sabiam eles da sua vida? Mas Ela havia de os pôr na ordem, assim queria acreditar. E então as suas palavras soaram de novo na antecâmara:

– E tu lagarto, quem foste tu?

– Eu fui um lagarto.

Patrícia sorriu com desdém. Pois claro, que mais poderia ter sido tal ser insignificante?

– E tu, grilo? Quem foste tu?

– Eu fui um grilo.

Voltou então o silêncio. E após algum tempo, que a Patrícia pareceu uma eternidade, Ela falou de novo:

Tu, lagarto, foste Natureza e por isso me respeitaste. O mesmo fizeste tu, grilo. Esse era o vosso propósito, e o mesmo haveis cumprido. Mas tu Patrícia, porque não foste Patrícia?

– Mas eu fui, também – respondeu prontamente, indignada com a pergunta Dela. – E tive responsabilidades, e muitos papéis na vida, que cumpri, ao contrário destes dois, que nada tiveram de fazer!

– E deixaste os papéis definirem quem tu foste. Dei-te a tua identidade, mas em lugar de a protegeres, colocaste-a nas mãos de outros. Mas agora, eles não estão aqui para prestar contas por ti. Deixaram-te sozinha, Patrícia.

Afinal a vida era bem mais simples. Mas já era tarde, e o halo de luz esmorecia por detrás da cortina pesada.

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