Morte na Praia

Sílvia tinha já perdido a conta ao número de candidaturas a ofertas de emprego, quando percebeu que a esperança a abandonava e os dias tornavam-se cinzentos e pesados, despidos de energia. Era uma situação nova na carreira, que a atingia na segunda metade da vida, logo agora que se sentia tão capaz e experiente como nunca, dotada de todas as armas para reconhecer e contornar os tropeções da vida. E eis que a mesma vida lhe pregava agora uma tamanha rasteira, que a deixava estirada no solo, incapaz de encontrar forma de se reerguer e continuar. Toda a preparação do passado valia agora pouco ou nada, aos olhos anónimos que agora olhavam – ou não – para o seu currículo, mergulhado entre centenas de outros, à procura de uma validação para continuar a ter um lugar à mesa dos empregados, banquete geralmente infeliz mas imprescindível na roda da vida. Estar desempregada era como estar doente, começava a senti-lo, e até o seu corpo começava a acreditar nisso. A força abandonava-a, bem como a imunidade, que deixava as pequenas constipações instalarem-se, qual festim de vírus alegres por se aproveitarem do seu hospedeiro triste.

E no entanto era preciso continuar. Para isso decidiu um dia marcar um consulta com o Dr. Walter Lazlo, que segundo um post do Instagram, ocupava-se de explicar e resolver os casos mais dramáticos da vida quotidiana, numa única sessão. O Dr. Lazlo tinha já uma idade avançada, e falava de um jeito desinteressado, de olhar perdido através da janela do gabinete, instalado num apartamento voltado para o mar, enquanto Sílvia lhe explicava o seu drama pessoal.

– Isto das candidaturas é muito simples, e aritmético – explicou, aborrecido. – É preciso candidatar-se a sua idade multiplicada por dois. A candidatura que representar esse número é a que será aceite. Isto quer dizer que um jovem de vinte anos tem de enviar quarenta currículos, e um idoso de oitenta precisa de cento e sessenta. Mas será aceite.

Sílvia pagou e deixou o gabinete a fazer contas. Era preciso ir à caixa do mail e contabilizar quantos currículos tinha já enviado, para saber quantos mais tinha de enviar para chegar ao número mágico. Quando o fez, percebeu que faltava pouco mais de uma dúzia. Pôs-se então a enviar mais candidaturas, mas a lugares que sabia impossíveis de a aceitarem, apenas para a colocar na candidatura chave segundo o Dr. Lazlo.

Apareceu então uma vaga perfeita para a sua experiência, numa empresa de sonho, era o encaixe perfeito para o seu perfil, e onde se via a trabalhar para o resto da vida. Para aquela candidatura fez então um currículo à medida, e a acompanhar uma carta de motivação cuidada, explicando porque era ela a candidata perfeita ao lugar – sem referir a teoria do Dr. Lazlo, o que podia confundir o recrutador. Sentiu uma esperança renovada quando enviou os documentos, ainda por cima era o seu dia de aniversário, tinha tudo para dar certo.

Mas a resposta nunca veio. Sílvia desistiu de enviar candidaturas, e morreu na praia do Dr. Lazlo.

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